O texto sobre o fenômeno Eu mereço! pode ser ouvido clicando aqui
Lembre-se:
Moacir Rauber
Nós, seres humanos, somos
observadores por natureza. Observa-se a natureza e seus fenômenos. Observam-se
as espécies e seus hábitos. Observam-se as pessoas, podendo a partir daí
aprender algo ou simplesmente fazer fofoca. Espero que meu raciocínio não seja
classificado como fofoca, uma vez que falo da vida alheia para identificar o
fenômeno do Eu mereço!…
O texto se refere a
observação de comportamentos que podem ser encontrados num grupo. Acompanhar de
perto a trajetória de algumas famílias, usando a observação e a abstração,
poderia nos aproximar de um claro
exemplo da teoria da evolução das espécies. Ela, a esposa, em seu período
jovem, aproxima-se de um macho, notadamente, alfa em seu círculo. Ele, o
esposo, está ligado a um grupo destacado financeiramente, facilmente podendo
ser classificado como bom provedor e, quem sabe, bom reprodutor. Para ela, o
acasalamento a levaria a perpetuar a espécie tendo a garantia de sobrevivência
própria e também da prole. Para ele, sob esse aspecto, seria a oportunidade de
disseminar seus genes no planeta, mantendo a sua linhagem. Sob essa ótica é um
processo natural!
Para o mesmo fenômeno,
considerando o estágio evolutivo em que se encontra a espécie humana, poderia
se estar falando de um homem, que, de igual forma, pode escolher suas esposas usando
das mesmas premissas. Assim, tem-se os cônjuges mantenedores e os mantidos.
Analisando-se homens e mulheres, foi identificado o fenômeno do merecimento
baseado no esforço alheio. Ele se manifesta de uma forma sutil, em que os
cônjuges mantidos, muitas vezes, se autopremiam, mesmo sem o devido
merecimento. Entrementes, rotineiramente usam um bordão para justificatar o
comportamento da autopremiação: Eu
mereço!. O fato chega a ser cômico, uma vez que o cônjuge que trabalha, em
diversas situações, não pode se autopremiar, porque não lhe resta tempo. Os filhos,
em geral, asumem o comportamento da autopremiação encontrado no cônjuge mantido,
justamente pelo maior tempo de convívio com ele. Assim, tem-se uma organização
familiar onde um elemento produz e os outros cobram resultados e usufruem benefícios
que não produziram. Qualquer menção por parte do cônjuge mantenedor de não querer
participar ou de não querer promover uma reunião social, por exemplo,
transforma-se em motivo de briga pelo cônjuge mantido com o apoio da prole.
Toda a argumentação é respaldada pelo fato de que haviam ficado a semana toda
em casa, sempre complementada pelo bordão: Eu
mereço!.
Esse fenômeno se reflete
no comportamento de um grande número de pessoas, nos mais diferentes ambientes.
Elas se autopremiam, antes mesmo do merecimento. São colaboradores que não
colaboram tanto assim, mas se julgam merecedores de benefícios; são proprietários
que se beneficiam tão somente do esforço alheio; são professores que não
ensinaram e tampouco aprenderam, mas que querem o reconhecimento; são pessoas
que não contribuíram, mas que se aposentam; são jovens e adolescentes que não
se autosutentam, mas se arrogam o direito de receberem uma premiação pelo
esforço que ainda não fizeram. Quase sempre se autopremiam pelo esforço alheio.
Não que as pessoas não devam se dar mimos. Não que as pessoas não possam desejar
levar uma vida com certas regalias. Muito pelo contrário. Creio esse ser um
norte dos indivíduos que os leva a melhorar a própria vida, assim como a dos
demais. Entrementes, antes de proclamar Eu
mereço! a pessoa deve saber de onde virá o prêmio. As custas de quem virá o
benefício que se está auto atribuindo… Assim, estendendo a observação, vejo
mais e mais pessoas se auto premiando sem contudo se questionar por que merecem
aquilo que se atribuem. Muitos se afundam em dívidas, mas não abrem mão do
prêmio. Outros se premiam mesmo que seja as custas de ofensas, agressões e
prejuízos a terceiros. Eu também, às vezes, creio que mereço certas benesses.
Porém, sempre cabe perguntar, Mas as
custas de quem? Por isso, uma família onde todos produzem se torna mais
justa, da mesma maneira como as demais organizações sociais ou empresariais.
Quando todos são, interdependentementes, responsáveis pelo esforço para se
alcançar determinado resultados, também o fato de fruir dos benefícios torna-se
mais legítimo.
Por fim, creio que o
texto não se classifica como fofoca, porque não se deram os nomes. Não é
pesquisa científica, porque não houve o rigor necessário na coleta dos dados e
nos critérios de observação do fenômeno. Não faz parte da teoria evolutiva,
porque constata-se um retrocesso. O texto é apenas o resultado da prática da
observação, que aponta um fenômeno que pode ser muito bom ao identificar que as
pessoas estão se preocupando consigo
mesmas, dando-se o direito da autopremiação. Muito justo, desde que você
realmente mereça…