Olhe mais uma vez!

Olhe mais uma vez!
Clique na imagem para saber sobre palestras...
Sempre se fala no privilégio, na beleza e na maravilha do fato de sermos únicos, exclusivos, singulares, especiais, entre outros adjetivos relativos a nossa característica humana de dessemelhança para com todos os demais no planeta. Mas, por outro lado, também se deve destacar que o que nos torna únicos é a nossa pluralidade, a nossa multiplicidade de FACETAS! com as quais nos apresentamos. Considere-se FACETAS!, segundo o Moderno Dicionário da Língua Portuguesa (Michaelis/UOL), como “Cada um dos aspectos particulares de uma pessoa” ou “Cada uma das pequenas faces regulares de uma pedra preciosa lapidada”.
É essa multiplicidade, essa pluralidade pelas incontáveis reações e percepções de nossas diferentes FACETAS! que nos transforma em seres únicos. Um paradoxo que não me proponho a decifrar! Proponho que cada um exponha a sua multiplicidade, a faceta lapidada ou por lapidar da pedra preciosa que cada um representa.
Leia, comente, escreva, critique, sugira e apresente novas FACETAS!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O alfabeto todo...


Moacir Rauber

Ler uma matéria na Revista VocêRH em que se alerta para uma revisão da ideia tão difundida de que nós somos divididos em gerações com características tão pontuais que permitiram rótulos como X, Y e Z é um alívio. Desde o período da faculdade dava-me a impressão que estávamos falando de uma linha de produção. Numa plataforma pode-se produzir determinado produto, como em uma linha de produção de veículos. Da plataforma tal produz-se o Golf geração 5. Daquela plataforma sai a nona versão do Corolla e naquela outra a sétima do Civic e asism por diante. A mesma linha de raciocínio havia sido adotado para as pessoas. Os baby boomers eram os filhos da guerra. Dessa plataforma surge a Geração X. Da base de produção da Geração X nasce a Geração Y, da qual virá a Geração Z. Tudo no quadrado dos processos como se estivéssemos falando de um produto que vai nos servir por conter determinadas características. A diferença é que estamos falando de pessoas, seres únicos, oriundos da unicidade de outros dois seres, que conferem a cada indivíduo distinções impossíveis de serem abrigadas numa taxionomia qualquer.

Para criar a taxionomia dos Baby Boomers, da Geração X, Y e Z, faltou combinar com as pessoas que se elas nasceram ou nascessem em determinado período elas deveriam ser assim ou assado. Finalmente acredito que os gestores estão se dando conta que é difícil querer entender gerações, que a solução é entender a pessoa.

Ainda vamos usar o alfabeto todo, combinando-o infinitamente para entender o indivíduo!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Intelectualidade

Ocasionalmente encontram-se membros da espécie humana com uma tal superioridade intelectual que conseguem mudar de opinião sem qualquer esforço.
Nassim Nicholas Taleb
O Cisne Negro

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Pau mandado


Moacir Rauber

Houve uma época em que tudo o que o chefe mandava se fazia sem nem pestanejar. Mais do que isso. Incentivou-se a que as pessoas tivessem iniciativa, que fossem proativos indo além da sua obrigação. Hoje já não se pode admitir que seja assim. Creio que se deva continuar fazendo o que é uma obrigação, assim como se deva continuar sendo proativo, mas com discernimento o suficiente para ser reativo frente aquilo que não está em conformidade com as prerrogativas legais e humanas.


Não há mais espaço para um pau mandado, nem que seja proativo!

Omitir informações também é atender mal



Moacir Rauber
Quinta-feira à tarde saí para comprar um roupeiro que queria ter em casa até no máximo na segunda-feira. Isso porque minha esposa viajaria na sexta-feira e eu na terça-feira. Retornaríamos juntos, dez dias depois, mas acompanhados com uma visita que ficaria conosco pelo período de vinte dias, motivo da compra do roupeiro. Entrei na primeira loja e vi um modelo que me agradou. Conversei com o vendedor e expliquei que o levaria, desde que me entregassem até a data pretendida. O vendedor lamentou, mas disse que não poderia entregar o produto antes de sete dias. Agradeci e fui para a segunda tentativa. Nada. A terceira, a quarta e não conseguia resolver meu problema. Ou não tinham o produto ou quando tinham não o podiam entregar dentro do prazo. Na verdade é uma forma muito estranha de ter, mas não ter. Por fim, encontramos numa loja o produto com as características desejadas e a garantia do vendedor que poderiam entregar o produto já no dia seguinte, sexta-feira. Tudo certo, dentro do programado. Fechamos a compra, embora eu mantivesse um certo receio quanto a entrega no prazo. Minha esposa viajou logo na manhã seguinte. Eu passei o dia em casa envolvido com meus trabalhos de consultoria, além de estar aguardando a entrega do produto. Por volta das 17h de sexta-feira toca a campainha. Eram os entregadores que estavam trazendo o roupeiro. Pensei comigo mesmo, Os serviços estão melhorando. As lojas estão cumprindo com o prometido. Subiram as caixas com o móvel desmontado. Pediram para que eu assinasse a nota de recebimento e já estavam de saída. Eu indaguei, Mas não vão montar? O rapaz me olhou e gentilmente informou, O senhor deve ligar para a empresa a agendar a montagem. O sangue subiu. Despedi-me do rapaz e telefonei para a empresa. Primeiro caiu no fax. Depois atenderam e passaram a ligação para o almoxarifado. Por fim, a ligação chegou ao destino. A atendente me informou que a montagem seria dali a sete dias. Argumentei calmamente com a atendente, explico a situação e concluo, Pois é, mas o vendedor me garantiu que o produto seria entregue até segunda-feira. Recebi a resposta num tom que me indagava se eu era estúpido ou o quê, Mas o produto foi entregue. A montagem e a entrega não tem nada a ver uma coisa com a outra! O meu queixo caiu. Ainda mantive a calma para explicar a situação para a atendente, que disse-me que o gerente daria um retorno. Viajei na terça-feira com produto entregue, mas sem ter sido montado.

As lojas usam seus jargões na comunicação para garantir uma venda, dando uma impressão e omitindo a informação. Por que eu como consumidor deveria saber que a entrega não garante a montagem? Como uma empresa pode vender com uma promessa de entrega, mas não de funcionamento de determinado produto? E ainda por cima o idiota sou eu. 

Por isso, omitir informações também e atender mal.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A diferença de idade


As diferenças de idade entre casais não são exclusividade dos dias de hoje. Em todos os momentos da história da humanidade e praticamente em todos os grupos sociais esse fato sempre se repete. Vi, recentemente, um ator brasileiro que está mantendo um relacionamento com uma mulher 53 anos mais jovem… Também conheci uma senhora com 69 anos, idade bem sugestiva, que levava a tiracolo seu jovem namorado de 20 anos para todos os lados. Em ambos os casos a primeira impressão é de que são os respectivos avós acompanhados pelos seus netos ou filhos. Mas o amor não tem idade! O amor não tem preço. Para os demais casos pode até ter um master card…

Esses comentários me remetem a outra situação vivida pela Andreia e por mim, também em Portugal. Nos dois anos que por lá vivemos estudei na mesma universidade em que minha esposa trabalhava. Íamos, na maioria da vezes, de ônibus, que oferecia excelentes condições de acessibilidade para pessoas com deficiência, meu caso cadeirante, idosos ou mulheres com carrinhos de bebê. Era muito prático e econômico o deslocamento de ônibus de casa até a universidade. Quando podíamos, íamos e voltávamos juntos. A Andreia, normalmente, dava-me uma forcinha para subir a rampa do ônibus. Entretanto, nossos horários nem sempre coincidiam. Quando ela não estava o motorista tinha que descer para empurrar-me rampa acima. Ele já nos conhecia. Sempre era atencioso e simpático. Certo dia, porém, em que eu não fui para a universidade a Andreia foi sozinha. Embarcou normalmente no ônibus. Na hora da saída, o motorista a cumprimentou como de costume e perguntou: Ah, o teu pai não veio hoje? Nesta hora a Andreia ficou um pouco desnorteada e ele continuou,  aquele senhor em cadeira de rodas não é teu pai? Ficando um pouco ruborizado, cor que se fortaleceu quando a Andreia lhe respondeu, Não, ele é meu marido… E comento-lhes que a diferença de idade entre nós é aproximadamente de 11 anos. Mas nas cabeças de muitas pessoas um cadeirante acompanhado por uma mulher mais jovem e bonita somente pode ser filha, uma irmã ou no máximo uma amiga bondosa.

Olha, mas no nosso caso,  acredito que seja amor, porque o Master Card tá sempre sem saldo…

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Você quer colo 2?


Alguns dias passados escrevi o texto Você quer colo? em que relatei uma situação pontual vivida em Portugal. Não foi piada!

Hoje escrevo o título Você quer colo 2? que aborda um tema semelhante, mas o fato aconteceu em Florianópolis. Talvez o título mais apropriado seria Planejamento Familiar...

Lá vai!!!


Lembre-se: 
Ouvir também é ler!
Para quem quiser ouvir...
Clique aqui e ouça!

Como bom cristão, participei de comunidades e paróquias nos lugares onde vivi. Tá certo que muitos me olhavam com desconfiança, porque se eu fosse tão bom cristão a fé já deveria ter produzido um milagre. Portanto, eu deveria estar caminhando e não usando uma cadeira de rodas… Mas isso é outra história!

Enquanto morava num bairro em Florianópolis, frequentava a igreja praticamente todos os domingos, participando de uma missa às 19h. Como trabalho voluntário ajudava na organização das festas, algumas vezes da catequese e, por dois anos, participei da Pastoral Familiar, composta por cinco ou seis casais. Estes se dedicavam a organizar cursos de noivo, visando preparar os futuros casais para as lidas da vida conjugal. A minha esposa, Andreia, sempre estava a postos para colaborar em uma ou outra situação. Eu um pouco menos, mas sempre que podia estava presente. Muitos dos conhecidos da comunidade eram homens e eu já havia me dado conta daqueles olhares bisbilhoteiros em que analisam e mentalmente perguntam, Será que esse cadeirante dá conta do recado com uma mulher tão bonita?, pois ela é realmente muito bonita. A pergunta é mental enquanto um homem está sozinho, porque quando se reúnem dois ou mais a análise é nua e crua. Sei muito bem, porque, afinal, sou homem. Num determinado período em que estava de viagem a Andreia foi sozinha à igreja. Nada de mais. Ela vai sozinha para todos os lugares e a igreja seria um lugar seguro, certo? Nem tanto… Ao final da missa o grupo se reuniu em frente à igreja, formando aquela agradável roda de conversa como de costume. Desta vez eu não estava, mas os demais estavam todos lá. Não eram exclusivamente os participanes de nossa pastoral, integrantes de outras pastorais ou mesmo um conhecido qualquer chegava, conversava, saía e voltava com a maior naturalidade. Entretanto, alguns daqueles senhores perceberam que a Andreia estava sozinha. Um deles, dez anos mais velho do que eu e 22 anos mais velho do que a Andreia, sempre galanteador e com fama de ser conquistador se aproximou dela e puxou conversa, Ué, onde está o Moacir? Está doente? Muitas pessoas, às vezes com malícia, julgam que um cadeirante tem problemas de saúde. É um doente... Ela, sempre espontânea, retrucou, Não, não. Ele ficará duas semanas fora de casa, porque foi participar de uma competição de remo. Vai me dar uma folga…Ufa! Esse gracejo, muito comum entre nós, foi a deixa para que o conquistador avançasse e, quem sabe, pudesse provar que o manquinho não dava conta. Começou com uma conversa sobre a sua pastoral, que colaborava com famílias carentes, mas que havia conseguido um DVD fantástico sobre planejamento familiar. Assim, como “bom cristão”, ele se disporia a passar na nossa casa durante a semana para assistir ao DVD e poderiam conversar mais à vontade. A Andreia inicialmente sequer entendeu e disse, Olha, não se incomode. Você pode me dar o DVD que eu o assisto na universidade, porque volta e meia tenho uma folga entre um compromisso e outro. Ele ficou um pouco desnorteado, tentou voltar ao assunto, mas nisso uma amiga nossa interferiu e a conversa tomou outro rumo. Mas quem diz que ele havia desistido? Durante a semana o conquistador foi até a nossa casa com um DVD na mão e cabeça cheia de outras coisas. Provavelmente querendo mexer com os índices demográficos... Tocou a campainha. A Andreia quando o viu pelo olho mágico não abriu a porta, mas abriu o olho. Quando voltei da minha viagem fiquei sabendo do ocorrido. No domingo seguinte a cena em frente à igreja se repetiu. Todos por lá, conversando animadamente sobre banalidades. Nisso, aproxima-se o conquistador, colocando-se entre a Andreia e eu. Nos cumprimentamos. Ele me perguntou como havia ido na competição. Contei-lhe, mas depois devolvi uma pergunta que lhe foi indigesta, E então, esta semana já estou em casa. Você não quer passar por lá para que possamos assistir ao DVD sobre planejamento familiar? O endereço eu sei que você já tem… A cara de espanto apareceu. A voz sumiu. Gaguejou. Depois ele disse, Não, não, é que… é que… eu já devolvi o DVD. Não era meu e… Eu o encarava sorrindo. Resolvi ajudá-lo e disse, Ah, tá. Tudo bem. Fica pra uma próxima. Melhor se eu estiver em casa… e dei uma risada. Despedimo-nos e fomos para casa.

E o planejamento familiar aqui em casa continua sendo feito a dois...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Eu mereço!!!

O texto sobre o fenômeno Eu mereço! pode ser ouvido clicando aqui

Lembre-se:

Moacir Rauber

Nós, seres humanos, somos observadores por natureza. Observa-se a natureza e seus fenômenos. Observam-se as espécies e seus hábitos. Observam-se as pessoas, podendo a partir daí aprender algo ou simplesmente fazer fofoca. Espero que meu raciocínio não seja classificado como fofoca, uma vez que falo da vida alheia para identificar o fenômeno do Eu mereço!

O texto se refere a observação de comportamentos que podem ser encontrados num grupo. Acompanhar de perto a trajetória de algumas famílias, usando a observação e a abstração, poderia nos aproximar de um  claro exemplo da teoria da evolução das espécies. Ela, a esposa, em seu período jovem, aproxima-se de um macho, notadamente, alfa em seu círculo. Ele, o esposo, está ligado a um grupo destacado financeiramente, facilmente podendo ser classificado como bom provedor e, quem sabe, bom reprodutor. Para ela, o acasalamento a levaria a perpetuar a espécie tendo a garantia de sobrevivência própria e também da prole. Para ele, sob esse aspecto, seria a oportunidade de disseminar seus genes no planeta, mantendo a sua linhagem. Sob essa ótica é um processo natural!

Para o mesmo fenômeno, considerando o estágio evolutivo em que se encontra a espécie humana, poderia se estar falando de um homem, que, de igual forma, pode escolher suas esposas usando das mesmas premissas. Assim, tem-se os cônjuges mantenedores e os mantidos. Analisando-se homens e mulheres, foi identificado o fenômeno do merecimento baseado no esforço alheio. Ele se manifesta de uma forma sutil, em que os cônjuges mantidos, muitas vezes, se autopremiam, mesmo sem o devido merecimento. Entrementes, rotineiramente usam um bordão para justificatar o comportamento da autopremiação: Eu mereço!. O fato chega a ser cômico, uma vez que o cônjuge que trabalha, em diversas situações, não pode se autopremiar, porque não lhe resta tempo. Os filhos, em geral, asumem o comportamento da autopremiação encontrado no cônjuge mantido, justamente pelo maior tempo de convívio com ele. Assim, tem-se uma organização familiar onde um elemento produz e os outros cobram resultados e usufruem benefícios que não produziram. Qualquer menção por parte do cônjuge mantenedor de não querer participar ou de não querer promover uma reunião social, por exemplo, transforma-se em motivo de briga pelo cônjuge mantido com o apoio da prole. Toda a argumentação é respaldada pelo fato de que haviam ficado a semana toda em casa, sempre complementada pelo bordão: Eu mereço!.

Esse fenômeno se reflete no comportamento de um grande número de pessoas, nos mais diferentes ambientes. Elas se autopremiam, antes mesmo do merecimento. São colaboradores que não colaboram tanto assim, mas se julgam merecedores de benefícios; são proprietários que se beneficiam tão somente do esforço alheio; são professores que não ensinaram e tampouco aprenderam, mas que querem o reconhecimento; são pessoas que não contribuíram, mas que se aposentam; são jovens e adolescentes que não se autosutentam, mas se arrogam o direito de receberem uma premiação pelo esforço que ainda não fizeram. Quase sempre se autopremiam pelo esforço alheio. Não que as pessoas não devam se dar mimos. Não que as pessoas não possam desejar levar uma vida com certas regalias. Muito pelo contrário. Creio esse ser um norte dos indivíduos que os leva a melhorar a própria vida, assim como a dos demais. Entrementes, antes de proclamar Eu mereço! a pessoa deve saber de onde virá o prêmio. As custas de quem virá o benefício que se está auto atribuindo… Assim, estendendo a observação, vejo mais e mais pessoas se auto premiando sem contudo se questionar por que merecem aquilo que se atribuem. Muitos se afundam em dívidas, mas não abrem mão do prêmio. Outros se premiam mesmo que seja as custas de ofensas, agressões e prejuízos a terceiros. Eu também, às vezes, creio que mereço certas benesses. Porém, sempre cabe perguntar, Mas as custas de quem? Por isso, uma família onde todos produzem se torna mais justa, da mesma maneira como as demais organizações sociais ou empresariais. Quando todos são, interdependentementes, responsáveis pelo esforço para se alcançar determinado resultados, também o fato de fruir dos benefícios torna-se mais legítimo.

Por fim, creio que o texto não se classifica como fofoca, porque não se deram os nomes. Não é pesquisa científica, porque não houve o rigor necessário na coleta dos dados e nos critérios de observação do fenômeno. Não faz parte da teoria evolutiva, porque constata-se um retrocesso. O texto é apenas o resultado da prática da observação, que aponta um fenômeno que pode ser muito bom ao identificar que as pessoas estão se preocupando  consigo mesmas, dando-se o direito da autopremiação. Muito justo, desde que você realmente mereça…

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Uma vida legal!!!

Ser sempre chique é chato… 


É aborrecido ser sempre intelectual... 


Por isso, precisa-se descer das tamancas para se ter uma vida legal!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Você quer colo?

Mal entendidos e humor andam lado a lado...

As más intenções, algumas vezes, também podem gerar situações de humor. Depende dos fatos...

Você quer colo? é uma história que poderia ter acontecido em qualquer lugar, mas foi em Portugal. 

Não é piada, mas pode-se rir um bocado. Leia abaixo ou Ouça, clicando aqui. 

Lembre-se: 
Ouvir também é Ler!


Você quer colo?

A vida de um cadeirante tem inúmeras particularidades, entre elas a curiosidade que desperta em homens e mulheres convencionais sobre o seu desempenho, principalmente, sexual. Quando eu era mais jovem, lembro-me que esse fato facilitava a minha aproximação das mulheres curiosas. Os homens tratavam-me como um igual, desde que eu estivesse sozinho. Porém, bastava eu aparecer acompanhado por uma mulher, fosse amiga ou namorada, os olhares masculinos expressavam certo interesse bisbilhoteiro, quase que revelando uma pergunta: será que ele vai dar conta?

Nos mais de 25 anos como cadeirante sempre soube lidar muito bem com essa situação, embora isso não queira dizer que nunca tenha reagido frente as indiscrições maiores. Em 2009, morava com minha esposa, Andreia, em Portugal. Passados alguns meses conhecemos um vizinho de prédio, um senhor português com 82 anos, que havia vivido por mais de 40 anos na cidade do Rio de Janeiro. O primeiro encontro foi na rua, em frente ao prédio, enquanto voltávamos das compras feitas no mercado da esquina, 50 metros adiante. Ele nos cumprimetou e fez referência ao fato de sermos brasileiros. Puxou conversa. Falou das maravilhas do Brasil. Quando soube que éramos do Sul do país se empolgou ao descrever uma de suas viagens pela região serrana de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, com ênfase nas vinícolas de Bento Gonçalves, uma vez que era um pequeno produtor de vinho em Portugal. Foi simpaticíssimo! Por fim, ofereceu-se para nos fazer uma visita um sábado qualquer. Logicamente nós reforçamos o convite, como manda a boa educação, além de ser uma oportunidade para fazer novas amizades. Passadas duas semanas, um sábado à tarde, por volta das 15h, toca a campainha. Abro à porta e vejo o Seu Fernando com duas sacolas nas mãos. Pedi-lhe o que era aquilo e ele, simpaticamente, respondeu, Ah, nada, apenas alguns mimos em sinal de amizade! Fiquei tentado a recusar, entretanto não seria muito lisonjeiro da minha parte. Ele deixou as sacolas na mesa da cozinha. Ao abri-las, vi beterrabas e vagens, entre outros legumes. Algumas nozes, salames e queijo. Um mini rancho. Fiquei constrangido,  dizendo que aquilo não era necessário. Ele minimizou a importância das compras e destacou a garrafa de vinho de sua produção que nos oferecia. Esse sim, agradou-me. Em seguida fomos até a sala onde ficamos conversando a tarde toda. Logo após a primeira hora de conversa começamos a notar que algumas histórias se repetiam. Mas sentíamos que lhe fazia bem que pudesse compartilhar com brasileiros suas experiências vividas no Brasil. Por vezes, destacava algumas passagens um pouco picantes de sua vida, deixando-nos um pouco apreensivos. Mas ao final da tarde havia sido uma visita agradável. Quando ele se despediu disse-lhe que as portas de nossa casa estariam abertas para outras visitas, mas que não necessitava para isso trazer-nos presentes. Nos apertamos as mãos e ele saiu.

Duas semanas depois, novamente por volta das 15h, lá estava o seu Fernando. Trazia consigo, outra vez, duas sacolas de compras. Aquela situação me era constrangedora. Aceitei, mas com a condição de que aquilo não se repetisse. Fomos até a sala e recomeçaram as mesmas histórias da visita anterior. Ao final da visita ele nos convidou para que fôssemos até a sua casa para conhecer a sua esposa. Combinamos a data e lá fomos nós. Chegamos ao seu apartamento e fomos recebidos por sua esposa, uma mulher 26 anos mais jovem do que ele. Ela viria a ser sua sobrinha, filha de um irmão, segundo o que nos contaram naquela tarde. Ambos falaram-nos das brigas e da rejeição por parte da família em aceitar o namoro e o quanto tiveram que lutar para que pudessem ficar juntos, uma vez que todos eram contrários por se tratar de um relacionamento incestuoso. Por fim, o amor venceu. Uma história muito bonita. Entretanto, não tiveram filhos, o que gerava entre os seus parentes o comentário de que se tratava de castigo divino. Mas isso é outra história… A visita a casa do seu Fernando terminou com um soboroso café acompanhados por uma farta bandeja de bolinhos de bacalhau.

Sábado à tarde, quinze dias depois, às 15h, toca a campainha. Lá vou eu até a porta com a certeza do que veria ao abri-la. É, não deu outra. Lá estava o seu Fernando, com duas sacolas de compras, esperando para ser convidado a entrar. Olhei, demonstrando em parte minha insatisfação pelas sacolas, mas dei-lhe passagem. Ele já se dirigiu a cozinha para deixar as compras. Repetiu-se a tarde. Repetiram-se as histórias. Mais uma ou duas visitas nas mesmas condições. Porém, chegou um sábado em que eu não estava em casa. A história se repetiu, com a diferença de que minha esposa foi abrir a porta. Ele se dirigiu a sala e sentou-se num sofá. A Andreia noutro. Como eu estava demorando para aparecer ele perguntou onde eu estava. Ela lhe contou que eu saíra. Imediatamente, com um agilidade acima do normal para a sua idade, ele saiu do sofá em que estava, pegou uma banqueta e sentou bem em frente a minha esposa, que se assustou. Começou a conversar sobre as suas aventuras amorosas e extraconjugais no Brasil. Reforçou que as mulheres brasileiras são excepcionais, carinhosas e muito amorosas. Passou a insinuar-se, para por fim sugerir que ela lhe fizesse carinhos, já que a sua esposa não mais fazia. Ele a recompesaria por isso. A Andreia se espantou. Não sabia como lidar com a situação. Estava muda. Ele avançou, pedindo para que pudesse sentar em seu colo. Ela se esquivou. Saiu da sala, dirigindo-se até a  porta. Disse-lhe que eu chegaria em breve. Por fim, conseguiu convencê-lo a sair de casa.


Naquele dia, ao chegar em casa, percebi a Andreia meio estranha. Ela não estava como de costume. Perguntei-lhe: O que foi? Aconteceu algo? Ela disse que estava tudo bem, mas em seguida contou-me o ocorrido. Aquilo chocou-me, deixando-me bastante irritado, a princípio. Pensava comigo mesmo, mas o que é isso? O velhote está gagá e ainda quer tirar uma lasquinha com a mulher do próximo? Foi aí que me lembrei que não se tratava da mulher do próximo, mas sim da mulher do cadeirante. E como a muitos outros homens deve ter lhe ocorrido a fatídica pergunta, Será que ele dá conta do recado? Comecei a rir. Logo em seguida veio-me uma ideia a cabeça. Deixa comigo!, pensei. Passaram-se as duas semanas de costume. Naquele sábado à tarde quem não estaria em casa era a Andreia. Às 15h toca a campainha. Eu estava de prontidão. Dirigi-me à porta e a entreabri. Enquanto segurava com uma mão a porta entreaberta me colocava no vão impedindo a passagem, bem em frente ao seu Fernando. Ele me cumprimetou com um largo sorriso, segurando as duas sacolas nas mãos fez um gesto como quem pede para entrar. Eu não me movi, mas lhe retribui o sorriso, para em seguida comentar, Pois então, seu Fernando, hoje a Andreia não está em casa, mas já que o senhor falou de sentar no colo para receber um carinho, quem sabe eu não possa fazê-lo hoje? Vi o terror em seus olhos. Ele deu dois passos atrás, deixando cair suas sacolas. Eu prossegui com uma voz melodiosa, Venha, seu Fernando, eu sou muito bom nisso. Senta aqui no meu colinho… batendo nas pernas… que eu lhe faço carinhos… e dei outro sorriso. Ele quase enfartou na minha frente. Titubeou, mas ainda tentou articular alguma explicação que não saiu. Fui até o elevador, apertei o botão e voltei até a porta do apartamento. Antes de fechá-la ainda lhe disse, Ah, e leve suas sacolas! Não mais vi o Seu Fernando.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Em 2012 seja um adulto autêntico com espírito de criança

Moacir Rauber
Ao escrever sobre “é bom ser adulto”, no texto abaixo, recebi retornos dos mais diversos. Quase todos dirigidos ao meu e-mail, concordando, identificando e descrevendo inúmeras situações em que presenciaram as “barbies” e os “Peters Pans” dos adultos. Muitos citaram o sentimento da vergonha alheia. Não sei se chega a tanto… Outros e-mails, entrementes, diziam que ser criança ou adolescente é muito bom, mesmo quando se é mais velho. Aí vem a minha discordância. Em nenhum momento escrevi ser contra a manutenção do espírito de criança e de adolescente. Ao contrário, tudo a favor.

Sempre fui a favor de manter o espírito de uma criança, incluindo a sua inocência e a sua ingenuidade, que certamente colaborariam para que tivéssemos um mundo melhor. Sempre fui a favor de manter o espírito de um adolescente, incluindo a sua curiosidade e o seu inconformismo, que certamente contribuiriam para que alcançássemos novos benefícios em nosso modo de viver. Principalmente, sempre fui a favor de que cada uma seja aquilo que queira ser. Entretanto, cabe destacar, que para manter o espírito de uma criança ou de um adolescente eu não preciso vestir-me ou comportar-me como tal. Ser criança ou ser adolescente é um momento único na vida, que uma vez vivido não retorna mais. Isso é óbvio! São fases em que somos autênticos. Por outro lado, sempre que um adulto tenta parecer um adolescente ou uma criança, pensando que está sendo, busca repetir o irrepetível. Torna-se caricato, porque a autenticidade não existe mais.

Mantenha o espírito da criança e do adolescente que existe em você. Transforme-se num adulto autêntico!

sábado, 31 de dezembro de 2011

É bom ser adulto...


É bom ser adulto!
Moacir Rauber

Os anos passam rápido, até parece que voam, mas cada vez me convenço mais que é muito bom ser adulto. Lembro-me bem que quando jovem havia tantas questões pequenas que me incomodavam muito: uma espinha no rosto, o cabelo que não se ajeitava, uma mancha na calça ou um tênis que não era exatamente o que eu queria eram motivo de sofrimento. A falta de autonomia era um tormento, fazendo com que eu queresse parecer o que não era: um adulto. Todas essas situaçoes rapidamente se transformavam num drama. Hoje não. Uma espinha não me incomoda pela aparência, apenas pela dor. O cabelo despenteado não é problema, é apenas uma saudade. A calça manchada é irrelevante, pois pode ser sinal de trabalho ou de diversão. A marca do tênis pouco importa, porque sou eu que o pago, resultado da autonomia que só um adulto tem.

Quando vejo adolescentes fazendo de tudo para parecer diferentes, para encontrar uma identidade ou criando problemas onde não há, às vezes fico irritado para em seguida dar de ombros com um sorriso, porque recordo dos meus grandes dilemas e sei que vão passar. Ou melhor, sabia., porque cada vez mais vejo pessoas que já deveriam ter a autonomia que a idade lhes faculta, comportando-se como jovens numa dependência doentia da aparência e também dos pais. Muitos deles pararam, estacionaram e não conseguem levar sua vida adiante, continuando a sofrer pelas espinhas, pelas calças, pelos tênis e pela falta de identidade. Muitos deles já estão naquilo que hoje se intitula de melhor idade, mas querem parecer adolescentes no comportamento, na aparência e nas resposanbilidades. Esses sim me deixam constrafeitos. Um jovem querendo parecer adulto é natural, é a sequência da vida. Entretanto, idosos ou adultos querendo parecer adolescente é constrangedor, porque ainda não entenderam que muito mais importante do que parecer ser é aquilo que se é. Essas pessoas ainda não entenderam que ser adulto é muito bom.

Não quer dizer que ser adulto lhe tire o direito de sorrir, de ser espontâneo ou de ter um espírito jovem. Não quer dizer que você como adulto não possa transgredir, ir além, sonhar e fazer. Ser adulto é exatamente o contrário. Quando você é adulto você tem autonomia, a responsabilidade e a propriedade para fazer aquilo que quer, quando e com quem quiser. Por isso, é muito bom ser adulto, porque posso ser exatamente aquilo que sou.

Ser adulto me permite ter um espírito jovem, sem ser bobalhão.

Ser adulto me permite assumir responsabilidades, sem sofrer com isso.

Ser adulto me permite ter identidade própria, sem me preocupar em parecer aquilo que não sou.

Ser adulto me permite desfrutar da plenitude mental, fonte de saberes e prazeres que somente os anos nos trazem.

Por isso, desejo que você possa levar uma vida de adulto em 2012 e ser feliz com isso!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Greve? Onde? Eu não sei de nada…


Moacir Rauber
Período de Natal e mais uma vez existe a ameaça de greve por parte de aeroviários e aeronautas no Brasil. Não vou entrar no mérito da questão, mas comentar algo que me chamou a atenção numa empresa aérea. Como meu sobrinho tem uma passagem adquirida justamente para o dia 23, data anunciada da greve, mantive contato com o serviço de atendimento ao cliente da empresa. Primeiro, como na grande maioria das empresas, o serviço o deixa em espera por pelo menos 20 minutos. Lamentavelmente pensamos, Tudo bem, é gratuito mesmo!, mas o tempo se foi. Quando fui atendido indaguei como a companhia se posicionava frente a possível greve programada e como seriam atingidos os serviços da empresa. Para minha surpresa a atendente foi pega de surpresa pela notícia. Eu acabara de lhe informar que, possivelmente, haveria greve no setor dali a três dias. Apesar de boa parte dos noticiários televisivos, radiofônicos, virtuais e impressos do país inteiro darem destaque a esse possível evento a pessoa que me atendeu, que está escalada para manter contato com os clientes, não sabia.

País raro o nosso. Quem deve saber nunca sabe de nada. Quem não precisaria saber muitas vezes sabe. Quem não deveria saber sabe inclusive o que não deveria. O exemplo pode representar um sério problema de comunicação, mas não somente. Há aí no mínimo um problema de falta de interesse do colaborador, que provavelmente não está colaborando tanto assim.  O que você conhece sobre a sua área? Você acompanha os acontecimentos do seu setor? Você tem noção de que tudo que nele acontece tem influência na vida de outras pessoas? Isso é interdependência…

A coluna da esquerda...

Moacir Rauber
A coluna da esquerda é uma técnica apresentada por Peter Senge, em que os integrantes das organizações são induzidos a dizer o que se está pensando, mas não se está dizendo. É uma situação delicada, mas faz com que as pessoas possam se desenvolver profissionalmente e também como ser humano. Muitas vezes é dolorido ouvir alguém dizer algo que não imaginamos que se poderiam estar pensando sobre nós, sobre a nossa forma de encarar os trabalhos e sobre a nossa forma de ser.

Participei de um workshop que tratava justamente da importância de se criar um ambiente apropriado para desenvolver nas pessoas confiança o suficiente para que se possa dizer o que se pensa. O palestrante fez uma exposição muito boa, usou uma encenação teatral bastante ilustrativa e deixou-nos a todos empolgados com a técnica. Reforçou que eles conseguiram criar essa cultura dentro da própria organização, em que ele como um dos diretores, sempre se dispunha a ouvir o que qualquer pessoa teria a dizer. Durante as três horas do workshop também sempre fez um vínculo com uma pergunta recorrente, O que você quer ser na vida?, deixando-nos claro que vive-se num momento em que somos os donos do nosso destino. Concordo em gênero, número e grau com essa crença, embora tenha uma discordância na construção da pergunta. Eu acredito que a pergunte deveria ser, O que você quer fazer da sua vida?, uma vez que ser nós somos desde que passamos a existir. Passada a apresentação muita gente foi falar com o palestrante e eu também fiquei por ali, esperando uma oportunidade para falar-lhe. Não consegui um momento a sós com ele, por isso apenas parabenizei-o e disse-lhe que gostaria de comentar algo com ele num outro momento. No período da tarde encontrei-o no corredor do evento e ele veio ter comigo de maneira muito receptiva. Conversamos um pouco e depois, de forma muito educada, sugeri-lhe que pensasse na possibilidade de mudar a formulação da pergunta. O sorriso desapareceu. A receptividade idem. A conversa findou. E a coluna da esquerda não funcionou com quem ensina sobre ela.

É delicado, não é? Como eu reagiria frente a coluna da esquerda? Não sei. E você?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Aviso aos cadeirantes: "Vocês precisam caminhar..."

Moacir Rauber

Participei de um evento na cidade de Santos-SP, com foco em Treinamento e Desenvolvimento de pessoas. Evento este marcado pela defesa intransigente de que as organizações devem se centrar nas pessoas, algo tão óbvio, pois sem pessoas não há organização, mas por vezes tão distante da realidade. Na condição de cadeirante por mais de 25 anos posso comprovar que essa percepção tem evoluído rapidamente, embora ainda se tenha um longo caminho pela frente até que se consiga entender verdadeiramente que as pessoas são a única razão de ser de qualquer organização. É essa percepção que levará a humanidade a conviver de forma equitativa com a diversidade.

Para deslocar-me até Santos fiz parte do trajeto em avião. Mas há um trecho que tenho que viajar de ônibus, normalmente um desafio para um cadeirante. Cheguei na rodoviária e encontrei pessoas atenciosas e simpáticas por parte da empresa. Logo orientaram-me para aguardar e entrar por último no veículo. Fiquei olhando para um ônibus lindo, enorme, majestoso e imponente. No vidro dianteiro e na lateral o adesivo da cadeira de rodas, que identifica a reserva de vagas para pessoas com deficiência. Aguardei até que todos os demais passageiros embarcassem. Observei a movimentação do motorista, um homem franzino com não mais de 1,65m de altura. Até engraçado saber que ele conduz um veículo tão soberbo. Tá vendo? Isso já é preconceito... Durante o tempo em que ele ajudava a acomodar as malas de todos também se deu conta que eu estava ali, a espera. Conforme os outros atendimentos íam terminando ele começou a me observar. Percebi que o motorista estava ficando um pouco aflito, até certo ponto constrangido. Por fim teve que me encarar, pois já não havia outra atividade a ser feita antes da partida. Devia passar por sua cabeça, Meu Deus, como farei para que ele embarque?, porque apesar do adesivo da cadeira de rodas não havia nenhum acesso para um cadeirante entrar no ônibus. Havia, sim, a reserva de vagas, mas não a condição para acedê-las. Eu me divertia com a situação, mas resolvi colaborar. Aproximei-me do motorista  e perguntei sobre como faríamos para subir. Ele ficou um pouco atrapalhado e perguntou-me, Você precisa de ajuda? Não consegue caminhar? Dei um sorriso para dizer que preciso sim de ajuda, caso o acesso ao ônibus seja somente pelas escadas. O motorista, sempre solícito, afirmou que conseguiria me carregar. Encostei minha cadeira próximo a escada de acesso do ônibus, o motorista colocou seus braços por baixo de meus braços, enquanto outra pessoa segurava as minhas pernas. Começaram a erguer-me para entrar no veículo. Ao pisar no primeiro degrau senti que o motorista fraquejou. Imaginem, ele tinha realmente muita vontade, mas a sua compleição física não ajudava, ainda mais considerando que eu tenho 1,85m. Tentou mais uma vez e conseguiu subir o primeiro degrau. Tentou se firmar, mas balançou. Esperou um pouco, fez um movimento e pôs o pé no segundo degrau. Senti que se preparou para um impulso mais forte. Quando ele fez o movimento de preparação meu corpo moveu-se um pouco lateralmente e a calça ficou enroscada no braço metálico que abre e fecha a porta do ônibus. Ele não viu e eu não senti, porém ao executar o movimento da subida o motorista e eu fomos, mas a calça não. Para piorar o motorista perdeu o equilíbrio e caiu sentado no degrau superior e eu fiquei no degrau de baixo somente de cuecas. Alguns curiosos que assistiam olhavam a situação entre assustados, estupefatos e apavorados. Eu os olhei e ri, ainda que um pouco embaraçado, porque minha cueca não era das mais bonitas... Falei, Calma, calma! O motorista queria voltar a fazer força. Rindo pedi-lhe para que não fizesse nada. Comecei a ajeitar minhas calças, fazendo alguns gracejos, Tá tudo sob controle, o passarinho não vai voar! Depois disse-lhes que eu subiria as escadas sozinho. Pus-me sentado corretamente num dos degraus e comecei a subir um a um movendo-me lentamente, trazendo as pernas com as mãos até chegar ao primeiro assento do ônibus. Na lateral do assento outra vez vi o adesivo que identifica ser o local próprio para cadeirantes. Apenas falta avisar aos cadeirantes que eles precisam caminhar…

É, certamente eu poderia esbravejar, reclamar e protestar, fazendo o maior escarcéu. Particularmente prefiro rir, porque sei como nos comportamos quando a diversidade nos aparece de forma realmente diversa. Ainda hoje nos assustamos e não sabemos como nos comportar diante dela. Também eu, que tenho diferenças visíveis advindas do uso de uma cadeira de rodas, deparo-me com situações frente as quais não sei como me comportar. Não há certo ou errado, apenas bom senso e normalidade. Ser diverso é que é normal!

E você, como convive com a diversidade na sua organização? No seu dia-a-dia? A diversidade é normal para você?


LEMBRE-SE:

“É importante viver sabendo que podemos falar, sem proferir palavras; que podemos ouvir, sem escutar os sons; que podemos ver, sem as imagens; que podemos caminhar, sem mover as pernas; enfim, que podemos aprender a aprender mantendo a mente aberta e em sintonia com o mundo, percebendo as oportunidades que nos rodeiam.”
Moacir Jorge Rauber


domingo, 11 de dezembro de 2011

O taxista e o cadeirante

Moacir Rauber

O desespero de muitos taxistas quando veem um cadeirante na fila de espera chega a ser cômico. Olham para um lado. Olham para o outro. Tentam passar adiante. Sinalizam que usam gás. Fingem que não viram nada e param em frente a outro passageiro. Mas não tem jeito. O cadeirante se dirige até o táxi. Alguns são até grosseiros. Outros ficam em estado de choque e devem pensar, Por que eu? Com tantos passageiros na fila tinha que ser justo eu? Com tantos taxistas, tinha que ser na minha vez?. Na última vez em que peguei um taxi no aeroporto de Porto Alegre o motorista teve estampada em sua cara todas essas reações. Por fim, quando me viu na sua porta ainda tentou uma última cartada para ver se a sua situação melhoraria e indagou, A cadeira vai junto?. Eu ri. Minha esposa que me acompanhava não riu e disse, Não, nós a trouxemos para passear… Apenas eu a ouvi, o taxista não. Entre o riso e o sorriso eu lhe disse, Sim, ela vai conosco. É minha companheira! Ah, a minha esposa vai também! e apontei para o outro lado do veículo, rindo. Ele olhou e finalmente desceu do carro. Rapidamente dei a volta e entrei no táxi. Dobrei a minha cadeira que ficou bem pequena. Minha esposa a carregou. Vi que ele ficou aliviado, pois deve ter pensado, Até que não foi tão difícil como imaginava… Durante o trajeto o taxista demonstrou ser um sujeito extrovertido e simpático.

Assim são nossos problemas. São muito maiores em nossas cabeças do que na realidade. Muitos deles sequer existem.

E você, como tem tratado os seus problemas? Cuidado para não transformá-los em realidade…

domingo, 4 de dezembro de 2011

Não tenho nada a ver com isso…


Moacir Rauber
É muito comum nós nos expressarmos dizendo, Não tenho nada a ver com isso, frente a mais diferentes situações, inclusive sobre ter ou não animais de estimação, por exemplo. Gosto muito de bichos, de todas as espécies. Gosto tanto deles que não os tenho. Prefiro-os livres. Caso tivesse uma casa com um quintal enorme ou ainda vivesse num sítio como na minha infância ou juventude, certamente, não me privaria do seu convívio. Mas esta não é a minha realidade. Vivo num apartamento na cidade. Tenho vizinho para cima, para baixo e para os lados. No meu prédio, a maioria dos meus vizinhos têm cachorros e também gatos. Outros têm iguanas, lagartos, aranhas e papagaios. Qualquer um poderia, tranquilamente, dizer que eu não tenho nada a ver com isso. Em parte é verdade. Somente em parte.

Hoje pela manhã saí de casa, em minha cadeira de rodas, rumo a um compromisso que teria às 11h. Não estava atrasado, mas também não tinha muita folga. Estava bem a tempo. Locomovia-me com rapidez pelas calçadas da cidade. Faltavam ainda uns 300 metros para chegar ao local do meu compromisso. Cruzava com um pedestre e outro. Desviei de uma senhora distraída. As mãos, como de costume, impulsionavam a cadeira com agilidade e segurança. De repente senti algo quente e úmido na mão esquerda. Logo senti um cheiro horrível. Olhei para a minha mão e ela estava toda suja de m… (isso mesmo, cocô de cachorro). Fiquei desolado. Minha cara expressava isso com clareza. Trazia tão somente minha pasta no colo e nela não tinha nenhum lenço ou papel absorvente. Levantei as mãos e deixei a cadeira correr por si só um pouquinho, enquanto mentalmente xingava o dono do cachorro. Quando a cadeira parou eu olhava ao redor para ver se encontrava algo para limpar a mão e a roda da cadeira. Não vi nada. Fiquei ali, meio atordoado, quando fui abordado por um senhor que estava sentado num carro estacionado ao lado, que me disse: Você quer alguns guardanapos? Eu tenho aqui no carro… Ofereceu-me ele gentilmente. Agradeci sinceramente. Limpei, joguei os guardanapos sujos numa lixeira que havia ao lado, agradeci mais uma vez e segui meu caminho. Cheguei ao local do compromisso e fui diretamente ao banheiro para lavar minhas mãos.

A situação expressa que nós sempre temos a ver com isso, seja o que for, principalmente quando não são respeitadas as boas regras de convívio. Quanto ao dono do cachorro sequer vou comentar. O meu comentário se reporta a nossa omissão quando nos deparamos com situações em que vemos que algo está mal, mas não fazemos nada, porque não temos nada a ver com isso. Certamente quando o cachorro fez o dito serviço na calçada alguém viu, mas ninguém se dignou a chamar a atenção do dono, porque afinal não tinha nada a ver com isso. Quem viu, fez que não viu e pisou ao lado. Não digo isso colocando-me acima do bem e do mal. Digo isso porque sofri as consequências da minha própria omissão. Algumas semanas passadas estava eu, num final de tarde, em frente ao meu prédio, observando o movimento da rua. Gente circulando, conversando, tomando seu chimarrão e levando seus animais de estimação para passear. Cada um é livre para tê-los. Com isso realmente não temos nada a ver. Entretanto, num dado momento vejo um vizinho do prédio com seu cachorro enorme na praça do outro lado da rua. O cachorro estica a coleira e se aproxima de uma árvore na pracinha em frente. Ajeita-se, faz toda a movimentação que antecede o momento e executa o serviço. O dono olha para um lado e para outro, espera seu cachorro terminar o que havia começado e vai embora, deixando a obra a céu aberto. Eu olhei, fiquei indignado, mas não fiz nada, afinal eu não tinha nada a ver com isso! Por que iria comprar uma briga com o vizinho por nada, uma vez que eu não pisaria naquele local? Porém, com essa situação eu tinha a ver sim. Minha obrigação era ter alertado ao dono sem educação. Minha indignação deveria ter feito com que eu saísse do meu comodismo e apontasse para o dono do cachorro que ele deveria tomar as providências. Isso porque se eu tivesse tomado a atitude que deveria ter tomado teria evitado que alguém pudesse ter sofrido as mesmas consequências que sofri, por que assim como eu, alguém se omitiu, simplesmente por acreditar que aquilo que não nos atinge diretamente não tem nada a ver conosco.

A situação relatada no início irritou-me em si, mas por outro lado frustrou-me muito mais como pessoa. Ela fez com que eu tomasse consciência de que é muito fácil criticar as omissões dos outros quando sofremos as consequências, assim como fez com que eu me desse conta das inúmeras vezes que nos omitimos. A situação me é emblemática, pois sempre falo da interdependência que se tem no meio organizacional e também social, porque das nossas atitudes e omissões ocorrem outras indiretamente a ela ligadas, mas pelas quais também somos responsáveis.

Por isso a pergunta: do que estamos nos omitindo porque aparentemente não temos nada a ver com isso?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

De onde virá o próximo Cisne Negro?

Moacir Rauber


Não havia lido um livro com argumentação tão boa e tão bem estruturada como O Cisne Negro, de Nicholas Nassim Taleb, que demonstrasse que nós não somos tudo aquilo que pensamos ser, nem para mais, nem para menos. Eu o li em 2008, mas o reencontrei entre meus livros na semana passada. A teoria do Cisne Negro é fascinante, porque ela trabalha sobre aquilo que nós desconhecemos, portanto, poderia não trabalhar. Se nós não conhecemos algo como podemos trabalhar com essa hipótese?

Ao esclarecer que antes da descoberta da Austrália pelos europeus todos os cisnes eram brancos, deu-nos a certeza de que existem muitos outros cisnes negros a serem descobertos em diferentes áreas. Podem surgir ou não. Por isso, sempre (já é um problema dizer “sempre”) que acreditamos ter chegado ao final de algo, que concluímos uma etapa esgotando todos os recursos, que descortinamos a última fronteira das novas descobertas e que exaurimos todas as possibilidades de encontrar uma solução, surge-nos a imagem do Cisne Negro. Uma justa metáfora para expressar a nossa incapacidade de prever, planejar, projetar, traçar, planificar ou qualquer outro sinônimo que nos remeta a um futuro que desconhecemos, composto por variáveis que não estão sob nosso controle e que dificilmente um dia estarão.

O autor conduz o texto de forma brilhante, transformando assuntos duros numa forma palatável de leitura interessante e entretida. A teoria do Cisne Negro fundamenta-se por ser altamente improvável, por isso dificilmente previsível; por ter grande impacto, causado por sua imprevisibilidade; e facilmente explicável, depois de ocorrido o fato. Com essa abordagem o livro descreve fatos históricos e também nos remete a outros comuns do dia-a-dia, fazendo as ligações com as bases da sua teoria. Tudo nos parece tão óbvio, depois de acontecido, por mais espetacular que tenha sido quando visto pela primeira vez. Ele consegue assim, demonstrar a incapacidade da humanidade de prever grandes eventos.

Por isso, o livro nos leva a questionar a função do planejamento, que não deveria ser encarado de forma tão contundente, uma vez que ele dificilmente é exato. Leva-nos a contestar as opiniões dos supostos especialistas das mais diversas áreas, que normalmente usam o passado para nos passar a falsa a impressão de que sabem algo sobre o futuro. Por fim, induz-nos a ser críticos com relação ao nosso conhecimento, para que não sejamos presunçosos, e a ser maleáveis com a nossa ignorância, sem contudo que ela seja fonte de acomodação. Tem-se, assim, um livro que nos alerta para a possibilidade do surgimento de inúmeros Cisnes Negros em nossa existência, sem que saiamos a sua caça. Deve-se apenas estar preparado para o altamente improvável, para o fortemente impactante e para o óbvio, depois de sucedido.

Fica a pergunta: de onde virá o teu Cisne Negro? Ainda bem que não se sabe…

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Música...


Ádina Mirza

Houve um tempo em que as pessoas e seu constante matraquear me faziam arder os ouvidos. Não era capaz de sentar muito tempo em meio a uma pequena multidão – fosse num shopping, numa praça ou num restaurante. A espera ruidosa antes de um espetáculo me incomodava, sobretudo. O alarido de vozes e risos como antecipação a um momento artístico me doía nos tímpanos, ressoava em meu cérebro como ondas gigantescas de água furiosa transbordando de diques. Invariavelmente, me irritava a ponto de consumir a paciência arduamente conquistada no passar dos anos de juventude para a maturidade. Sempre queria fugir ou tapar os ouvidos com grossas bolas de cera. Tudo isso para fugir do ruído incessante que parece o moto contínuo da maioria dos seres ditos humanos.

Depois, comecei a elaborar em minúcias uma resistência calada, mas espessa e sólida. Adquiri uma dura camada de insensibilidade auditiva, mesmo durante altercações familiares ou festividades de altos decibéis. Conseguia passar quase impávida entre a massa de impropérios ou exclamações de júbilo natalino ou esportivo... Esse tempo foi divertido até. Porque conseguia me mover entre outros com a sensação de caminhar através de um plasma invisível que me permitia observar gestos e feições em seu aspecto mais bruto – ou natural, se assim o queiram... Minha mente fotografava instantes de puro estupor e de doce deleite. Podia observar, em detalhes e secretamente, as emoções mais esdrúxulas ou comoventes. Podia rir, depois, à margem, de tudo que havia visto. Isso tudo passou. Mesmo os atos mais risíveis começaram a me parecer monótonos.

Surgiu, então, uma nova sensação. Aos poucos, comecei a entender o movimento humano como se lesse olhares e espreitasse mentes. Não precisava mais de sons ou ruídos. Aprendi a decifrar gestos, a vislumbrar pensamentos. Não precisei mais ouvir palavras, já intuía intenções e desejos. Passei a descobrir, então, a música que cada um carrega pela vida afora. Agora posso enxergar as nuances de cores e as ondas de calor que circundam aqueles que cruzam meu caminho. E, assim, por meio dos halos de luz que criam ao redor, posso ouvir a música que produzem. Há belas sinfonias, canções antigas, melodias desafinadas e gorjeios de pássaros. É assim que ouço, hoje, o mundo e os seres. E não há outro som que me encante mais. Porque posso escutar, todo o tempo, as músicas que movem a vida.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O desafio de preparar pessoas para gerir pessoas (Parte 2)

Moacir Rauber


Em julho de 2011 escrevi um texto “O desafio de preparar pessoas para gerir pessoas” publicado no link http://facesfacetas.blogspot.com/2011/07/o-desafio-de-preparar-as-pessoas-para.html. Naquele texto descrevi uma situação em que o processo de seleção escolheu um profissional que não foi contratado por uma questão puramente burocrática. Os responsáveis pela área de Gestão de Recursos Humanos da empresa não souberam olhar para além do seu quadrado departamental, afrontando as diretrizes da organização em nome da própria comodidade. Certamente gerou prejuízos para o indivíduo e para a organização. Entretanto, na última semana acompanhei o processo de seleção em uma das áreas mais atraentes e em expansão do cenário brasileiro, o setor da aviação. Um piloto de aviação com muitos anos de experiência em aeronaves menores tem buscado migrar para uma empresa que opere aeronaves maiores. Manteve contato com algumas das principais companhias aéreas brasileiras e inscreveu-se nos respectivos processos de seleção. Participou de vários, que normalmente são compostos por diferentes etapas. Conhecimentos técnicos, simuladores de voo, exame psicotécnico, situações de risco, entre outras provas. Até aí tudo bem. O que me espanta e me causa irritação é o processo de comunicação, ou melhor, da não comunicação durante ou sinalizando o término do processo. Trata-se do processo de seleção de uma mão de obra altamente qualificada e mesmo assim o profissional em questão me relatou inúmeras situações absurdas ocorridas. Disse-me que numa organização inscreveu-se no processo seletivo juntamente com mais 40 candidatos. Fez a primeira etapa e ao final foi comunicado que dariam uma resposta em 10 dias. Já se passaram mais de 30 dias e nenhum contato foi feito. Noutra empresa fez a primeira etapa do processo e foi logo selecionado para a segunda, com outros sete candidatos. Havia uma vaga. Cumpriu a fase e recebeu a informação que o resultado sairia em 48 horas. Nada, nada já lá vão14 dias desde a realização da prova e nenhum contato foi mantido pela empresa. Contou-me assim ainda outras histórias e absurdos que ocorrem no processo de seleção em diferentes empresas de aviação no Brasil.
Pode-se deduzir que em algumas empresas o descaso com as pessoas é parte de uma política organizacional, enquanto de outras trata-se apenas de política desorganizacional da área de gestão de pessoas. Nem uma nem outra situação se justificam num período em que o discurso das organizações se voltam para a valorização do ser humano. A não comunicação gera frustração nas pessoas que aguardam uma resposta, porque ficam na expectativa de que serão chamados, mas ao mesmo tempo a resposta não vem. A comunicação deve ocorrer tanto em casos positivos como negativos, porque em ambos os casos se permite que a pessoa toque sua vida em frente. Em caso negativo a pessoa pode buscar outra colocação. Em caso afirmativo a pessoa pode se preparar para ingressar na própria organização. Custa tanto mandar um e-mail, dar um telefonema ou mesmo outra forma de comunicação? Por isso me causa assombro a não comunicação, pois trata-se uma questão de respeito para quem está na posição de candidato, independentemente se o processo se refere a contratação de pessoas altamente qualificadas ou não. Esse respeito deve ser dado a todas as pessoas para todos os cargos. O discurso da valorização das pessoas deve ser posto em prática pelas pessoas que compõem aquela empresa, uma vez que o fato de se estar na condição de recrutador ou de candidato é simplesmente circunstancial.
Por isso é importante que os profissionais de recursos humanos que trabalham nos processos seletivos se perguntem todos os dias:  eu gostaria de ser tratado como trato as pessoas no processo de seleção que estou conduzindo?
O piloto em questão terminou por ser contratado por uma das empresas para as quais se candidatou, porém formou uma imagem tremendamente negativa das demais. Fato esse largamente disseminado para outras tantas pessoas!!!

sábado, 19 de novembro de 2011

Quando ONGs se tornam INGs


Moacir Rauber

A criação de uma ONG – Organização Não-Governamental precisa de um grupo de pessoas para a sua formação e ter como objetivo o desenvolvimento de atividades de interesse público. Uma iniciativa louvável, que foi vista pelo Estado como um possível solucionador de problemas coletivos pela própria coletividade. Assim, surgiram inúmeras ONGs nas mais diversas áreas propondo-se a resolver demandas da sociedade, desde os problemas de uma comunidade, passando por questões ambientais, direitos das minorias, combate a fome, até problemas de garantias dos direitos humanos. Tudo muito justo e muito bonito!

Nessa mesma linha de raciocínio muitas pessoas têm iniciativas individuais, aplicando parte dos seus proventos diretamente em questões nas quais eles acreditam poder contribuir. Alguns abatem parte dessa contribuição do Imposto de Renda, mas outros, literalmente, doam daquilo que ganham. Este último é o melhor exemplo de um Indivíduo Não-Governamental preocupado em resolver os problemas que afetam outras pessoas diretamente, mas que podem atingi-lo por outras vias.

Entretanto, o ser humano tem uma criatividade para além da imaginação comum. Muitas ONGs passaram a ser governamentais, pois dependem e somente existem com recursos oriundos da esfera pública. Até aí ainda muitas são aceitáveis. O problema se apresenta quando as ONGs somente o são no papel. Um sujeito com uma visão deturpada e oportunista convida outros para criarem uma ONG. Cumprem com toda a rotina burocrática, escrevem um projeto para resolver uma demanda social e se propõem a captar os recursos. Com a colaboração de algum contato conseguem aprová-lo, para em seguida receber os recursos. Aplicam uma parte ínfima dos recursos no objetivo a que se propuseram inicialmente e o restante é distribuído entre os integrantes como salários, horas técnicas, assessoria e é direcionado para empresas que eles próprios são os donos. Ao se referirem as ONGs que eles criaram e coordenam falam em alto e bom som, A minha ONG!”, referindo-se a ela como propriedade e não como a uma organização para quem eles prestariam serviços. As próprias matérias jornalísticas, seja na televisão ou outro meio, referem-se aos diretores das ONGs como, “O Senhor Fulano, dono da ONG tal...” e nem sequer se dão conta do quanto está desvirtuda a situação. Do absurdo que dizem e escrevem! Uma ONG não pode ter dono. Uma ONG deveria ser não governamental sempre, desde as pessoas e os recursos. Uma ONG deveria servir os interesses da coletividade e não de indivíduos que as transformaram em INGs, mas altamente governamentais. Isso porque vivem e enriquecem com recursos públicos que deveriam atender a uma demanda pública.

Você conhece alguma ONG que se transformou em ING e somente atende interesses individuais?

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O maior problema


Moacir Rauber

Quase sempre quando interagimos e nos relacionamos com outras pessoas, sejam elas da empresa na qual trabalhamos ou mesmo em qualquer outro círculo social, as conversas recaem sobre os problemas que se enfrentam. Apontam-se as situações problemáticas de comportamento da sociedade como um todo, dos meios de comunicação, de alguma organização,  de alguns indivído em específico, do chefe, do vizinho, do cachorro, do papagaio, enfim, de todos a nossa volta que já não demonstram atitudes adequadas e éticas. Quase em sua totalidade estão fora de nós e esquecemo-nos dos problemas derivados de nosso comportamento. Na grande maioria das vezes, na nossa visão, os nossos problemas são derivados daqueles que antes citamos. Dificilmente passa por nossas cabeças que os nossos problemas poderiam ser resultados das nossas próprias escolhas, muitas delas equivocadas. Das nossas omissões em não resolver, mas de trasnferir.  Principalmente se considerarmos que errar é humano, mas atribuir a culpa a outro é fundamental. E assim, vamos empurrando nossas culpas e procurando atalhos em busca do caminho mais fácil. Esquecemos que se nós assim pensamos também os outros possivelmente o fazem e transferem para nós as responsabilidades dos seus problemas, criando-se um círculo vicioso no qual ninguém resolve os próprios problemas.

O maior problema de cada um é literalmente de cada um. Algumas pessoas podem viver situações mais drásticas, terríveis e assustadoras, entretanto somente ela mesma poderá resolvê-las, por mais ou menos grave que seja. Ninguém pode resolvê-las para você, exceto você. Outras pessoas até podem se compadecer, se solidarizar ou mesmo colaborar com você em algum momento, mas ninguém pode resolver nada por você. Não se trata de egoísmo. Nós até podemos nos importar com os outros e entender que a situação vivida por aquele meu colega é difícil, mas cabe a ele resolvê-la ou não. Até o fato de transferir para os outros a responsabilidade que é sua é decicido por você. Por isso, o seu maior problema é o seu. Resolva-o que é a melhor maneira de colaborar para a resolução dos demais problemas!

Onde está o seu maior problema? Já conseguiu identificá-lo para poder resolvê-lo?

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Epitáfio...


Moacir Rauber

Uma pergunta muito comum feita às crianças e aos muitos jovens recém contratados nas organizações é, o que você quer ser na vida? Trata-se de uma abordagem inconveniente e errônea, uma vez que ser nós somos desde o momento que passamos a existir. A indagação deveria ser outra, o que você vai fazer da sua vida? Essa sim é uma pergunta que cada um pode responder, porque sobre as nossas vidas nós temos autonomia. O tracinho existente entre o ano de nascimento e o ano da morte cabe a cada um preenchê-lo com as suas decisões, ações e consequências. Essa autonomia pode ser comprovada nos exemplos de tantas vidas de pessoas que souberam vivê-las, assim como pode ser constatada em muitos epitáfios de lápides de pessoas que souberam fazer da sua vida aquilo que queriam, ou não.

Para exemplificar, pode-se escolher duas pessoas com a mesma origem social, com semelhantes graus de instrução e com igualdade de condições financeiras e se encontrará uma realizada e outra frustrada. Encontram-se pessoas que conquistaram tudo o que o dinheiro pode oferecer, mas não conseguiram levar a vida de forma a encontrar nela o bem-estar. Da mesma forma, outras pessoas com boas condições de vida souberam viver bem, inclusive transmitindo a sensação de bem-estar para os demais. Também se pode encontrar pessoas com poucos recursos materiais, mas que conseguiram encontrar o equilíbrio para levar uma vida plena, enquanto outros se prendem as frustrações daquilo que não conquistaram. Certamente que existem fatores fora de nosso controle que afetam as vidas, de todos sem exceção. Portanto, o que fazer da sua vida é uma decisão é pessoal e intransferível! Também os epitáfios oferecem muitos exemplos de pessoas que souberam ou não preencher o seu tracinho. Vejo alguns cômicos, mas nem por isso menos reveladores. “Aqui jaz um homem que morreu de saco cheio”, poderia até ser o Papai Noel, mas provavelmente esconde alguém angustiado. “Agoras estás com o Senhor. Senhor, cuidado com o dinheiro”, certamente trata do caráter ou da falta dele. “Bom esposo, bom pai, péssimo eletricista em casa”, expõe que por trás dessa lápide poderia estar alguém um pouco descuidado, mas que por certo teve uma passagem digna. Entretanto, ver numa lápide o dizer “Uma andorinha que fez verão!” certamente revela uma pessoa que teve uma vida plena e que soube o que fazer com aquele traço entre as datas de nascimento e morte. Por isso, o desafio é que cada um possa ter a frase que o define já em vida, antes que os outros escrevam por você.

Logo, vem a pergunta, o que você quer que escrevam sobre você abaixo do seu nome quando sobre ele estiver a expressão Aqui jaz?

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A sociedade do propósito


Moacir Rauber

Assistir a uma conferência sobre o conhecimento é sempre interessante, porque se questiona o próprio conhecimento. Considera-se, portanto, que não basta buscar o conhecimento pelo conhecimento, pois este deve cumprir com o objetivo de melhorar quem o busca para também melhorar o mundo para aqueles que não o detém. Desse modo, a sociedade do conhecimento deve avançar para a sociedade do propósito, porque também o conhecimento deve tê-lo. 

sábado, 29 de outubro de 2011

O todo e a avaliação de desempenho


E a sua organização, como vai?
Moacir Rauber

O foco de todo o sistema de avaliação de desempenho desenvolvido e aplicado dentro das organizações sempre é o desempenho do colaborador. Correto, justo e positivo, pois a partir dessa ferramenta se pode ter parâmetros de produtividade que nos auxiliem a avaliar nossa competitividade frente as demais orgnaizações, bem como a organizar ou reorganizar nosso quadro de colaboradores, com vistas a oferecer um produto ou serviço o mais customizado possível. Entretanto, a gestão das organizações deveria também se preocupar em responder outras duas questões:

(1)   Como seria a avaliação de desempenho da sua organização a partir da visão do indivíduo?

(2)   A sua organização conseuge entender o todo individual dos colaboradores que a compõem?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A importância do segundo



Moacir Rauber


Encostei o barco no trapiche da linda raia de Munique, na Alemanha. Estava ofegante, exausto, completamente esbaforido. Havia terminado a regata em quarto lugar, um resultado muito aquém do esperado. Logicamente, neste momento passam pela cabeça todo o período de dedicação, as opções feitas e, consequentemente, as abdicações resultantes daquela escolha. O período de treinamento dedicado, visando especificamente este campeonato mundial de remo, havia começado em fevereiro e agora estávamos em setembro. Foram horas, dias, semanas e meses de treinamentos diários, com raras folgas, muito esforço e muito suor, frutos de uma rotina cansativa de treinos repetitivos de musculação e remadas. Um circuito completo dos exercícios de musculação consistia no uso de dez diferentes aparelhos e equipamentos, entre eles o temível remo ergômetro, totalizando três horas. Puxa e solta o peso, repete uma, duas, quinze, trinta vezes. Olhar fixo na parede, no branco que não nos reconforta. Intervalo de um minuto e meio entre uma repetição e outra. Neste momento o tempo voa, depois pára. Voa no intervalo e pára no exercício. Cansaço e suor. Um objetivo fixo na memória, os exercícios e os dias se repetem. “Não há esporte de alto rendimento sem sofrimento, sem comprometimento”, dizia o treinador. O sofrimento fazia parte dessa rotina e o comprometimento tinha dois lados. O primeiro era o compromisso do atleta com o programa de treinos, o objetivo traçado de alcançar o melhor resultado com a maior doação. O segundo lado do comprometimento se referia aos malefícios trazidos ao corpo pelo ritmo excessivo de treinos, sobrecarga a que são expostos os músculos, os ossos, os ligamentos, as articulações e toda a estrutura orgânica do atleta visando um desempenho acima do que permite o próprio corpo, pensando em superar os tempos dos adversários. “Esporte de alto rendimento não é saúde, é exagero” vaticinava outra vez o treinador. E deixava bem claro que se nós quiséssemos ter mínimo de êxito nas competições deveríamos ter superação, dedicação e comprometimento em todos os dias de nossa preparação. Os treinos na água eram menos tediosos, porém não menos desgastantes. A minha categoria, que rema usando somente os braços, faz em média dez quilômetros de percurso na água por sessão de treinamento, muitas vezes se dava em dois períodos diários. Mas esse percurso não consiste em remadas de passeio. São diferentes exercícios sempre buscando o melhor desempenho. Na saída a orientação para que se fizesse cinco quilômetros de aquecimento, iniciando num ritmo mais lento, mas gradativamente alcançando uma pegada mais forte. Depois vinham exercícios de força e velocidade. Repetições intermináveis de vinte remadas em força máxima, dez remadas suaves, vinte, dez, e assim até completar mais quatro quilômetros. Por fim, mais um quilômetro de tiro livre em força máxima.

Toda essa preparação, toda a infindável repetição dos treinos diariamente para chegar em QUARTO lugar? Lembrar de todos os domingos que fiquei em casa ou no alojamento, enquanto meus familiares se reuniam para churrascos de fim de semana ou mesmo para alguns dias na praia... Todas as sextas à noite em que fui cedo para a cama, enquanto meus amigos se divertiam nas baladas... Não ter aceitado nenhuma oferta de trabalho para poder me dedicar exclusivamente aos treinos pensando em chegar em primeiro... Mas, no final, apesar de todo o empenho, cheguei em quarto lugar naquela derradeira regata! Naquele momento, soube que seria a última, pois não teria mais pique nem ânimo para repetir tudo outra vez. Mas, por outro lado, olhando para aquelas mais de vinte mil pessoas assistindo à regata, telões armados, empresas instaladas no local, emissoras de televisão transmitindo ao vivo, enfim, o circo armado, percebi que nada disso seria feito se somente participasse do evento aquele que chegou em primeiro lugar. Percebi que isso se aplica a todos os esportes. No futebol participam de uma competição 20 ou trinta equipes, mas em primeiro lugar chega somente uma. No tênis o ranking enumera mais de 1500 atletas, sendo um privilégio constar na lista, mas primeiro lugar existe somente um. Nas corridas de Fórmula 1, são vinte equipes, mas ao final da etapa somente uma chega em primeiro, bem como no final do campeonato... Também lembrei que sempre há lugar para o segundo, para o terceiro, para o quarto lugar, enfim... sempre há lugar para aquele que faz o melhor que pode! Afinal, quem seria o primeiro se não houvesse o segundo? E o segundo sem o terceiro? E o que seria de todos os anteriores se não houvesse o último? E este último certamente é melhor do que aquelas milhões de pessoas que sequer tentaram!! O nosso mundo é formado muito mais por pessoas que não alcançaram o primeiro lugar, ou seja, de segundos, terceiros e tantos lugares quanto haja na classificação.


E você, está buscando ser o primeiro ou está

caminhando para ser sempre melhor?